Esta matéria foi publicada pelo jornal O Dia na data 22/01/2002
O luxo que veio do lixo
Geraldo Spozel recicla peças de couro em oficina com artesões superespecializados

Sabe
aquela bolsa velha de couro que você ia jogar fora? Não faça isso. Geraldo
Spozel é um mago capaz de transformar qualquer lixo de couro ou sintético em
luxo. Pelas suas mãos, sapatos viram sandálias, tapetes transformam-se em
malas e um casaco antigo e grande pode ser ajustado, ganhar nova cor e
adequar-se à moda atual.
Essa
fábrica de criatividade e reciclagem fica no coração de Copacabana. A fachada
simples de uma lojinha na rua Siqueira Campos, 75 esconde o talento de
profissionais capazes de fazer verdadeiros milagres com peças de couro. são
artesões que trabalham para transformar em realidade os delírios de Spozel,
responsável por captar o desejo do cliente e transformá-lo numa peça
reciclada.
O
negócio começou por acaso. Há seis anos, Spozel perdeu seu emprego de
advogado em uma estatal que fechou as portas. Com o dinheiro da indenização na
mão, passou 15 dias pensando no que poderia fazer. "Queria inventar algo
que ninguém tivesse feito, mas não surgia nenhuma idéia", disse ele.
A
idéia luminosa surgiu quando após percorrer 25 sapateiros de Copacabana para
consertar a tira de um sapato, percebeu que não havia ninguém interessado em
fazer o serviço. "Então resolvi me especializar no que ninguém queria
fazer".
Para suprir o estoque, percorreu fábricas de bolsas, onde recolhia retalhos de couros que iriam para o lixo. Com isso, conseguiu ter uma enorme variedade de tipos de couro a custo quase zero. "Hoje, até curtumes de São Paulo e do Maranhão mandam retalhos para mim", explica.
Há
dois anos, Geraldo Spozel resolveu dar mais um passo. Comprou a Vistamar Calçados,
no Leblon, uma sapataria de 80 anos que fazia calçados sob medida. Ele
transferiu as máquinas e todo o pessoal que trabalhava na Vistamar para a
oficina que fica no subsolo e no primeiro andar do prédio de Copacabana e
passou a também fazer calçados sob medida.
“Sapato
de grife tem gente muito boa fazendo, mas nem toda mulher pode usar. Sapatos
ortopédicos também, mas os modelos são sempre iguais”, diz Spozel. Ele então
passou a fazer adaptações.
Mas
não são apenas calçados e bolsas que povoam o universo criativo de Spozel.
Ele mexe com tudo o que se refere a couro e peles. Do sapato ao sofá. Uma das
suas principais atividades, por exemplo, é a recuperação de cadeiras e sofás
de couro.
Outro
trabalho feito na oficina de Spozel é a hidratação de casacos de couro.
Segundo ele, o couro absorve a poluição e é preciso hidratá-lo e limpá-lo.
Caso contrário, vai ficando duro, ressecado, até rasgar. Com a hidratação, o
casaco volta a Ter o brilho e a maciez originais.
Para
dar conta de tanto trabalho, Spozel cercou-se de artesões altamente
especializados. “São aposentados, com 40 anos de profissão, que não têm
rapidez, mas o trabalho deles tem uma qualidade que não existe mais hoje em
dia”, elogia.
A
sofisticação do trabalho da oficina de Geraldo Spozel não surgiu de repente.
Ele conta que, quando abriu a loja, fazia apenas consertos simples, como repor
ou colocar as rodinhas de malas, refazer uma alça de bolsa ou mesmo furar um
cinto. Depois vieram as bainhas e a colocação de zíper em roupas de couro.
Simples
ou complexo, “todo conserto bem feito, respeitando a peça, não parece
remendo”, diz Spozel. Ele pode, por exemplo, aumentar o tamanho de um casaco
de couro de 42 para 46. E, já que é verão, lembra também que “couro não
esquenta, é térmico”. Como prova, dá uma explicação definitiva: “se
couro esquentasse, cangaceiro andava sem camisa”.
Atualmente,
a oficina de Spozel faz qualquer coisa que se possa imaginar em termos de couro
e, segundo ele, ultimamente a demanda tem sido maior para mudar a cor do couro,
o que exige tratamento da peça. Outros pedidos que ele sempre atende: alargar
botas, transformar sapato fechado em aberto, modernizar ou recuperar casacos de
pele e lavar qualquer peça de couro.
Para fazer tudo isso com qualidade e criatividade, Spozel conta com uma equipe de 15 pessoas. Na oficina, o coordenador é Adelino Vaz, um sapateiro com 42 anos de profissão que, antes de trabalhar com Spozel, dirigiu a Vistamar por 33 anos.
Antes Depois
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Caixa de Ferramentas que virou estojo de maquiagem forrada |
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Bolsas Victor Hugo antigas restauradas |
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Palhas de cadeira que viraram bolsas e cinto |
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Chapeleira antiga, com fungos, que foi higienizada e restaurada |